domingo, 20 de julho de 2008

o CaBoClO d'AgUa

porque do fundo do grande remanso, onde ninguém acha o fundo, vem um rugido , vem um gemido, tão rouco e feio, que as ariranhas pegam no choro, como meninos. O canoeiro que vem no remo, desprevenido, ouve o gemido e fica a tremer. É o caboclo d’água, todo peludo, todo oleoso, que vem subindo lá das profundas, e a mão enorme,preta e palmada, de garras longas, pega o rebordo da canoinha quase a virar. E o canoeiro, de facão pronto, fica parado, rezando baixo, pág-94 sempre a tremer Crescendo d’água ,lá vem a máscara, negra e medonha, de um gorila de olhar humano, o Caboclo d’água ameaçador. E o canoeiro já não tem medo, porque o Caboclo o olhou de frente, todo molhado, com olhos tristonhos,rosto choroso, quase falando, quase perguntando pela ingrata Iara, que, já faz tempo, se foi embora, que há tantos anos o abandonou... João Guimarães Rosa

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